Ressonâncias do III Encontro: As Matrizes Míticas da Obra de Bion

Mito III:  A torre de Babel

por Maria Luiza Soares Ferreira Borges, Membro Filiado da SBPRP

Iniciamos o contato na manhã do dia sete de outubro de 2017, em meio à multiplicidade de linguagens e sentidos vividos, já ao adentrarmos no espaço de nossa Sociedade: o movimento da comissão organizando o café para nos receber com todo o cuidado e carinho, a alegria do encontro com colegas e amigos, o belo arranjo de orquídeas na entrada, o que mobilizou paradas, admirações, fotos. Em seguida a abertura com a linguagem musical que tocou a fundo nossas almas. A capacidade da música em nos sensibilizar e nos afetar, já na abertura do evento, apresentada por Yuka de Almeida Prado e Gustavo Costa, foi um grande presente. Iniciamos nosso mergulho na multiplicidade de sensações em diferentes tons e idiomas, cada um sendo tocado em suas peculiaridades sensitivas e afetivas. O ritmo, a cadência, a melodia, o idioma, o violão, a voz, formas de comunicação primordial, nos tocaram profundamente, aguçando nossos sentidos e a capacidade de viver a estesia. Todos esses movimentos e estímulos nos aproximaram de áreas do sentir, lembrando-nos do quanto o ser humano almeja um contato, um comunicar-se com o outro, algo tão necessário e, ao mesmo tempo, tão complexo e delicado.

Marisa Giannecchini inicia nos apresentando o mito como narrativa arcaico-primordial. Utiliza a obra: A árvore da vida, de Gustav Klimt, como estímulo para pensarmos que o problema da comunicação se dá para além do plano de superfície.  Evoca estímulos para pensarmos sobre os vértices de sentido pelos quais Babel pode ser apresentada. Ela ressalta que, no livro Gênesis, ao narrarem o mito, a palavra “confusão” prevalece. Revelam-se o homem e o seu desejo de ser mais que homem, a hybris humana, a desmedida que o coloca diante do desafio da linguagem. Lembra-nos do mito de Cassandra, que configura a representação da dificuldade em ser ouvida, em se fazer ouvir. Marisa faz o questionamento: “Por que as línguas se fragmentaram?” Porque os homens se movimentam. Informa-nos que, no século dezenove, houve grandes pesquisas linguísticas e tentativas para se compreender as matrizes das línguas modernas, chegando-se ao que seria a proto língua hindu europeia.

A palestrante se vale da História, por meios de textos poéticos, para pensarmos as reescrituras de Babel. Traz o poema de Camões, “Sobolos rios”, como representação de nosso mundo inteligível, em que Sião é o lugar perfeito e Babel o tempo presente, platonicamente o mundo sensível, imperfeito. Toda tentativa se faz para alcançar o plano das ideias a partir da saída da caverna.

Outro vértice é “A biblioteca de Babel”, conto de Jorge Luís Borges, em que o mundo é constituído por uma biblioteca infindável, remetendo-nos ao que Bion propõe como pensamentos em busca de um pensador. A biblioteca aponta para a expectativa de organização do aparente finito rumo ao infinito.

O filme Lavoura Arcaica exemplifica Babel a partir do desencontro de quem fala a mesma língua, sem que haja compreensão dos seres envolvidos no diálogo. O filho tenta mostrar ao pai a linguagem das emoções, enquanto o pai permanece preso à linguagem de controle do que é instituído. Reverbera nas dimensões edípicas que demandam uma continência emocional para serem elaboradas.

Em seguida, a palestrante ilustra a linguagem na superficialidade da informação, retratada no filme Babel, do diretor Alejandro González Iñárritu (2006). Salienta que as evidências são da ordem do parecer, o que dá margem para as confusões. Ressalta ainda as inúmeras “babéis” que ocorrem na área da comunicação midiática em que as informações rápidas e em tempo real podem ficar na ordem da aparência. A voz autoral do filme nos lembra de que o encontro com o outro ocorre para além do plano de superfície.

Na sequência, o tema em questão trouxe a “língua estrangeira”, de Guimarães Rosa. Para o falante de língua portuguesa no Brasil, há um estranhamento diante da inventividade do escritor mineiro. Mas o leitor precisa enfrentar o desafio de conviver com um universo linguístico singular, transcender a camada epidérmica para camadas mais profundas, em que autor e público-leitor possam se encontrar.

Em seguida, a psicanalista Eva Maria Migliavacca ressalta que os mitos são criados para tentar conhecer e enfrentar a realidade mental. O mito é também utilizado para se pensar a condição social. O outro sempre nos chama para o desconhecido e remete ao aspecto da psique que se desorganiza no contato com o outro. Lembra-nos de que o “desorganizado” sempre esteve ali. No mito da torre de Babel, as diferentes línguas, povos e culturas sempre estiveram presentes, mesmo que não observadas.  A Babel foi a eclosão do que já estava lá. O conceito de “cesura” de Bion pode dar conta do fenômeno da ruptura do estado de confusão, da discórdia e da continuidade e multiplicidade de línguas e povos, pós eclosão da ruptura.

Eva utiliza como estímulos para pensarmos Um filme falado – direção de Manoel de Oliveira (2003). O homem sempre buscou eliminar a distância entre o mundo terreno e o divino. O divino é o desconhecido que se revela ao homem, uma área da vida e do mundo que não conseguimos entender direito. O divino inacessível nos lembra de algo inatangível. A dispersão nos dá o retrato de nossos conflitos.  Ela nos convida também a perceber, através de dois documentários, “Eu não sou seu negro” (2017) e “Fogo no Mar” (2016), a Babel em que vivemos. No primeiro documentário a dificuldade em lidar com as diferenças, a discriminação racial e cultural se revela como a “Babel” contemporânea.  No segundo, a grave crise migratória na Europa, revelando a “Babel”, reeditada na atualidade.

Eva também cita o conto: “Desfibragem”, um dos setenta e um contos de Primo Levi, para pensarmos a diferenciação e a complexidade presente na ação humana. Ela nos recorda que Bion enfatiza o mito de Babel como representação da destruição da palavra, destruição do encontro frutífero com o outro, como ataque aos elos de ligação e ao conhecimento.  

Nos comentários entre os participantes, tivemos mais estímulos para pensarmos as reescrituras do mito. Paulo Ribeiro ressalta a Babel como o contato com a multidimensionalidade da mente e ilustra com outra obra de Borges, “O Aleph”, que remete ao contato com essa multiplicidade e o cuidado com o uso da língua na medida em que podemos esgotar seus sentidos. Muitos foram os estímulos para refletirmos esse Mito, estímulos férteis, que possibilitaram aberturas em nossa capacidade de pensar os vários vértices da “Babel” que podemos encontrar. Ao nos conformarmos com estados confusionais, por temor do desconhecido e por desejo de um estado mental de harmonia plena, que aponta para a apatia, esbarra-se em áreas que evadem a possibilidade de crescimento. Senti-me estimulada a buscar maior compreensão e ampliação dos sentidos através das obras citadas. Estas são algumas das reverberações que me suscitaram as apresentações, na tentativa de traduzir a essência do encontro. Cabe ao leitor envolver-se com o tema e, juntos, transcendermos a superfície, em busca das nascentes dos sentidos.

Aguardamos ansiosos pela quarta etapa do nosso curso “As Matrizes Míticas na Obra de Bion: Cemitério Real de Ur.” Teremos o prazer de ouvir e conversar com: Jacintho Lins Brandão da UFMG e Raul Hartke da SBPPA. 

Dia 17/03 às 9.30h
Realização: Espaço Cultural da SBPRP

 

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