Sobre o segundo encontro de “As matrizes míticas na obra de Bion”

por Profª Maria José Bottino Roma, a convite do Espaço Cultural da SBPRP

19 de agosto de 2017. Dia do segundo encontro do curso “As matrizes míticas na obra de Bion”. Fui para esse compromisso com muita alegria e grande expectativa, pois a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto nos proporciona, por meio desse evento, rara oportunidade de refletirmos sobre mitos fundadores da cultura ocidental.

O tema a ser abordado nesse dia era o mito do Jardim do Éden, com as presenças de Mary Lafer, professora de Língua e Literatura Grega da Universidade de São Paulo, e Dra. Maria Aparecida Sidericoudes Polachini, psicanalista, membro efetivo com funções didáticas da SBPRP.

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Belíssimas imagens e fragmentos de textos, ao som do delicado adágio “Secret Garden”, nos proporcionam um primeiro contato com o tema.

Mary Lafer apresentou-nos um fragmento da Bíblia de Jerusalém e o “Mito de Prometeu e Pandora”, que se encontra em Os trabalhos e os dias, de Hesíodo. A professora destacou que, embora os textos tenham objetivos diferentes, o mito de Prometeu e Pandora é o que mais possibilita uma aproximação com o mito cristão, pois em ambos há a presença do lugar agradável, em ambos há uma desobediência: Adão e Eva desobedecem a Deus ao provarem o fruto da árvore do conhecimento; Prometeu desobedece a Zeus ao roubar o fogo divino para dá-lo aos homens. Adão e Eva são castigados com a expulsão do Paraíso, Prometeu é amarrado no alto do morro Cáucaso. Aos homens Zeus castiga enviando-lhes a bela e ambígua Pandora.

Maria Aparecida Sidericoudes Polachini, de maneira profunda e delicada, nos levou a refletir sobre a presença do mito do Jardim do Éden em Bion por meio do relato de um caso clínico. Fez a relação entre os mitos e os sonhos. Mostrou-nos a dupla face de Deus no Éden: coloca a bela árvore do conhecimento no meio do jardim e proíbe Adão e Eva de provarem seu saboroso fruto.

Essas colocações nos levam a refletir sobre uma questão profundamente humana. Tal qual Adão e Eva que, ao provarem do fruto proibido da árvore do conhecimento, têm consciência de sua nudez e perdem as delícias do paraíso, nós também, ao termos conhecimento de nós mesmos e do mundo que nos cerca, perdemos algo. Ao termos consciência de nossa nudez, nossa precariedade, nossas limitações, perdemos a ilusão de sermos seres inteiros, acabados, e sofremos por isso. No entanto, é a dor que nos torna humanos e parceiros do outro, parceiros daqueles que estão à nossa volta pois, como afirmou o poeta e dramaturgo romano Terêncio, “nada do que é humano me é estranho.”

Ao nos aproximarmos do mito de Prometeu e Pandora, vemos que, como castigo por terem recebido o fogo divino que o Titã roubara para os homens, os quais viviam, como podemos ler em Hesíodo, “a recato dos males, dos difíceis trabalhos, das doenças”, Zeus envia-lhes Pandora – quem trazia um jarro que, ao ser aberto, espalhou “tristes pesares”. O jarro foi fechado e dentro dele ficou apenas a “Expectação”.

É interessante observar que Hesíodo usa a palavra “expectação” e não “esperança”, como costumamos nos referir ao que ficou fechado no jarro de Pandora. A palavra “expectação” é mais adequada, pois abrange o sentido mais amplo de espera: o sentido positivo e o negativo.

Como, diante dessa imagem, não nos lembrarmos do capítulo “O delírio”, no livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis? Nesse capítulo, o protagonista Brás Cubas conta seu delírio no leito de morte, quando cavalga um hipopótamo que o leva ao início dos séculos. Vê-se, então, aos pés de uma mulher imensa, que se identifica como a Natureza ou Pandora, sua mãe e inimiga. Diante da reação dele, ela o acalma: “Não te assustes. Minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo.” À pergunta “por que Pandora?” ela responde: “Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e, o maior de todos, a esperança, consolação dos homens.”

Saímos desse encontro com um presente e um desafio: pensarmos em nós mesmos e na importância, na urgência de buscarmos, mesmo à custa da dor, da dúvida e da incerteza, o conhecimento de nós mesmos e dos mistérios que nos cercam e na necessidade de nos fazer a difícil pergunta da qual Édipo se esquivou: “Quem sou eu?”

Assim, precisamos, tal qual Prometeu, repartir o fogo do conhecimento para que a expectação, presa no jarro de Pandora, se espalhe assumindo seu sentido positivo. Não a esperança vazia de sentido, superficial, que nos afasta da realidade e de nosso papel de agentes da História, mas que nos leve a empreender, como nos diz Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “O homem, as viagens”, a “dificílima, dangerosíssima viagem de si a si mesmo”. O conhecimento possibilitará, então, que o homem consiga “pôr o pé no chão / do seu coração /experimentar /colonizar /civilizar / humanizar /o homem / descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas / a perene, insuspeitada alegria /de con-viver.”

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